Os muitos guetos de um rapper

Por Bárbara Pereira

Dughettu é nome artístico, mas representa, e muito, a pessoa física Marcello Silva. Nascido na Penha, criado em Guadalupe, no Rio de Janeiro, o rapper circulou – e ainda circula – pelos muitos guetos que existem nessa cidade ainda partida, cheia de territórios desconhecidos de muitos moradores de qualquer um dos lados do túnel. Afinal, as fronteiras impostas pelo preconceito ainda estão aí, com suas imaginárias trincheiras que produzem desconfiança e medo entre quem vive “lá e cá”, referências geográficas utilizadas por ambos os lados.

Marcello ignorou essas referências. Os “lá e cá” dele andaram sempre juntos. Ainda nos tempos de escola, entrou para o atletismo, ganhou campeonatos, até que se interessou por moda. Virou modelo de campanhas publicitárias para grandes empresas. Como sempre gostou de tudo misturado, passou a organizar festas na Zona Norte no fim dos anos 1990, eventos que o levaram a mostrar seu trabalho nos territórios da Zona Sul. Nesse momento, já estava capturado pelo movimento Hip Hop americano. Ao mesmo tempo que despontava como rapper, se tornou o responsável pelo marketing de uma multinacional de bebidas energéticas e, mais tarde, apresentador de TV. Hoje, divide sua agenda entre a Presidência do Instituto de Articulação Urbana Eixo e a vida de artista.

Quase dez anos depois de se lançar como rapper (gravou seus primeiros singles em 2005), já tem dois CDs produzidos, um deles nos Estados Unidos, e está em processo de pesquisa para a realização do terceiro. Quer ampliar suas inspirações e, para isso, vai buscar outras referências numa viagem para a Cidade do Cabo, na África do Sul, e para a República do Mali. Além da música, gosta também de se inspirar em outras artes, como o trabalho do ativista francês JR, com quem, em 2008, atuou no projeto “Women are heroes” (Mulheres são heroínas), no Morro da Providência, no Rio de Janeiro. Lá, o fotógrafo registrou e estampou rostos de mulheres da própria favela nas fachadas e escadas da comunidade. Dessa experiência surgiu um de seus clipes.

Nesta entrevista para Prisma, Dughettu fala de sua trajetória, de seu trabalho, que define como Artivismo, e também de medos, dos seus e dos companheiros de rap. Revela que, embora a maioria das letras incentive uma atitude proativa, esse é um sentimento que também ronda as mentes dos artistas da cultura urbana.

 

 

Matéria publicada originalmente na Plataforma Prisma