O prazer na adolescência pelas lentes do cinema

Por Rosália Duarte

Com quantos ingredientes se faz a receita de prazer dos adolescentes e jovens? Tachados como farristas, um bando que quer levar a vida na flauta, como diz o velho ditado, muitos reclamam que a realidade não é bem assim. O prazer na adolescência vai muito além de curtir a vida adoidado.

A adolescência é um fenômeno histórico-cultural originado por fatores econômicos e sociais. Até o início do século XX não se estabeleciam diferenças significativas entre adolescentes e adultos em termos de deveres junto à família e à sociedade. Em muitos países, crianças e adolescentes de classes populares trabalhavam quase tanto quanto os adultos e, muitas vezes, assumiam responsabilidades no sustento e na organização familiar (algo que ocorre ainda hoje).

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Nas sociedades ocidentais, a consolidação da revolução industrial levou o mercado de trabalho a adotar certos padrões de produção, com o uso de máquinas e equipamentos mais sofisticados, cuja operação exigia maior qualificação profissional. O crescimento do setor de serviços também impôs novas competências profissionais. Além disso, graves crises econômicas reduziram o número de postos de trabalhos, o que levou os empregadores a priorizarem a contratação de adultos. Paralelamente, com a forte valorização da escola, a educação escolar passou a ser vista como fundamental para a formação das novas gerações, o que implicava a adoção de mecanismos e leis que assegurassem o ingresso das crianças na escola e a ampliação do tempo de permanência. A associação entre esses fatores contribuiu para o surgimento do que chamamos hoje de adolescência – uma espécie de moratória que a sociedade concede aos jovens (embora não a todos, em razão da desigualdade social), estendendo por mais alguns anos a entrada deles na vida adulta (que implica independência econômica).

retina-4Essa contextualização, embora seja conhecida, é importante para que não se confunda adolescência com puberdade. A puberdade está ligada ao desenvolvimento biofisiológico que ocorre com a imensa maioria dos seres humanos mais ou menos entre 12 e 19 anos: mudanças físicas provocadas por fatores hormonais. Nem todos os que estão na puberdade se enquadram na representação de adolescência criada em nossa sociedade.

Cabe lembrar que somos seres sociais e nos tornamos sujeitos apenas na relação com outros seres humanos, na linguagem e na cultura. Por isso, algumas vezes, “o dito fica sendo o feito”. Nesse caso específico, as representações de adolescência criadas socialmente ajudam a construir modelos, modos de ser adolescente, “jeitos de agir”, que muitos acabam por adotar (e não apenas os que estão na puberdade!) para se sentirem pertencendo a um grupo social.

 

 

A recompensa do prazer

Uma parte dos muitos “ditos” sobre a adolescência está relacionada ao prazer. Os adolescentes são frequentemente representados como “hedonistas”, isto é, como pessoas movidas exclusivamente pela busca do prazer, que não medem esforços nem consequências para obter prazer, ainda que esse seja efêmero. Para os neurocientistas, há uma explicação neurológica para isso: os estudos mais recentes do cérebro humano indicam que entre os 12 e os 18 ou 19 anos ocorrem mudanças no sistema de recompensas do cérebro, levando tudo que antes dava prazer a se tornar um tanto insosso e desinteressante.

neuroO sistema de recompensas fica um tanto difícil de ser ativado, e o prazer, experiência absolutamente necessária para a preservação da vida, para ser sentido precisa ser mais intenso, suas fontes precisam ser constantemente renovadas, pois, em pouco tempo, o que parecia tão interessante perde grande parte do seu encanto.

Mesmo admitindo que a fisiologia do cérebro e os hormônios influenciam o pensamento e o comportamento dos adolescentes, sabemos que esses fatores não determinam o que é ser adolescente, pois as circunstâncias econômicas, históricas, culturais e sociais tomam parte nisso. Assim, numa cultura em que o prazer é cultuado como signo máximo de felicidade e em que a felicidade é frequentemente associada ao consumo padronizado (ser feliz é ter algumas coisas, de certa marca, com certos padrões estéticos, ser feliz é frequentar certos lugares, fazer certas coisas etc.), a urgência frenética pelo prazer de ter e de experimentar novidades o tempo todo não pode ser explicada pela fisiologia. Há um ambiente social muito favorável a sentir-se permanentemente insatisfeito com o que se tem e com o que se é.

Mas, mesmo considerando tudo isso, é preciso admitir que a busca incessante pelo prazer é uma característica da adolescência. O título de um álbum dos Titãs (“Tudo ao mesmo tempo agora”) e um verso de uma canção do Kid Abelha (“eu tenho pressa e tanta coisa me interessa, mas nada tanto assim”) expressam isso poeticamente.

Os filmes sobre adolescentes também tratam desse tema e desempenham papel importante na configuração do que é ser adolescente, divulgando e criando ideias sobre o lugar e a forma do prazer nessa “fase” da vida.

Alguns parecem querer enquadrar a diversidade em modelos que aparentemente representariam todos. Essa estratégia fica bastante evidente nos chamados teen movies, uma espécie de gênero cinematográfico que, independentemente do tema que aborda (vida escolar, família, medo, amor, amizade etc.), limita e reduz o prazer dos adolescentes a uma “meia dúzia” de opções: sexo, armas, drogas, violência, velocidade, consumo, com algumas poucas possibilidades para além disso. Criam estereótipos, atribuindo a todos os que potencialmente podem ser vistos como adolescentes uma característica única, como se dissessem “o que dá prazer aos adolescentes é somente isso e desse modo, e se você não sente prazer assim, então não é adolescente!”.

queroMas o cinema é grande e diverso e também cria formas sofisticadas, interessantes e sensíveis de tratar esse tema, em filmes que instigam a reflexão e ajudam a desfazer preconceitos. É o que se pode perceber, por exemplo, em “Billy Elliot”, um filme inglês de 1999 (direção de Stephen Daldry), no qual um garoto, mesmo pressionado pelo pai a lutar box, descobre que seu maior prazer está em… dançar balé!

Com a mesma delicadeza, “Inquietos” (de Gus Van Sant) fala da descoberta de um prazer absolutamente básico: o prazer de estar junto! O filme conta a história de amor entre Annabel, uma jovem em estágio terminal de câncer, que desfruta cada acontecimento da vida como se fosse único (ou o último!) e Enoch, um garoto depressivo, que não tem prazer algum em viver, os dois criam formas inusitadas de aproveitar o pouco tempo que têm juntos, redefinindo interesses, valores e prioridades.

 

 

 

 

 

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Clube dos cinco”, um filme de 1985 (já “idoso” para os padrões juvenis), escrito e dirigido por John Hughes, aborda o encontro de cinco adolescentes que têm em comum apenas o fato de estarem de castigo no colégio, em um sábado, por indisciplina. Aqui, o que está em questão são as diferenças. Essas vão, aos poucos, na convivência (obrigatória, naquela circunstância), dando lugar ao prazer de ser aceito pelo outro, com seus defeitos e qualidades, e de aceitar o outro, do modo como ele é, base sobre a qual se assenta a amizade! Em “Querô”, filme brasileiro de Carlos Cortez (adaptado de um livro de Plínio Marcus), a adolescência é mostrada com contornos bem mais sombrios e amargos. O personagem que dá título ao filme carrega no nome a morte da mãe, que se suicidou tomando querosene. Os maus-tratos de que é vítima durante a infância e as inúmeras dificuldades que enfrenta para se inserir na sociedade configuram uma personalidade absolutamente autodestrutiva e um modo de lidar com a vida, no qual o prazer consiste, basicamente, em evitar a dor.

Para deixar o tema em aberto, vale mencionar que, como não há uma adolescência, mas muitas adolescências, há, portanto, muitas e diferentes formas de se relacionar com o prazer na adolescência. Respeitadas a própria dignidade e a dignidade do outro, vale experimentar as possibilidades de autoconhecimento que elas nos oferecem.

 

Matéria originalmente publicada na Plataforma Prisma