O prazer foi todo meu

Por Giovânia Costa*

Onde está o prazer ao assistir uma peça de teatro? Se formos analisar apenas os sucessos de bilheteria, é possível concluir que grande parte do público encontra prazer apenas nas comédias. Mas prazer não se limita a divertimento, há quem encontre satisfação em encenações mais densas, que geram incômodos, que provocam. A educadora Giovânia Costa fala da necessidade de empreender esforços para o alcance do prazer estético na arte teatral. Uma espécie de musculação na busca de uma experiência prazerosa.

Quem não entender Canudos não entenderá o Brasil, diz Ariano Suassuna, autor teatral e intelectual brasileiro. O episódio de Canudos já foi retratado em livros de história, em filme e na peça Os Sertões, do Grupo Oficina. Vi o filme e vi a peça, e foi a peça que me revelou não só o Brasil, mas muito de mim mesma, brasileira. Parto dela para esta breve reflexão sobre prazer nas artes cênicas. E não poderia ser outro grupo a me inspirar. O Oficina, talvez o mais longo trabalho de uma companhia teatral no país, a cada “atuação soberana” carrega-se e nos carrega para infinitas possibilidades de prazer. O Oficina não representa uma peça chamada Sertões, antes, nos leva a viver um acontecimento encarnado no corpo de cada ator e faz do público o coro. O espaço cênico acontece entre a realidade histórica e a ficção, faz-se presente o ausente. A verdade do fazer-teatral que o grupo imprime à cena leva a momentos de êxtase.

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Em 2007, fiz uma viagem do Rio de Janeiro até Canudos, na Bahia, somente para rever a peça, que eu tinha assistido no ano anterior no Festival Internacional de Teatro do Rio, num galpão na Praça Mauá. A peça se passa em cinco dias, em cada um é apresentado ao público um episódio distinto da histórica Guerra de Canudos retratada por Euclides da Cunha. Dividida em cinco partes (A terra, homem 01, homem 02, luta 01 e luta 02), cada episódio tem duração de seis horas, em média. Ouvi muitos comentários sobre a disposição de empreender tal viagem para ver algo que já tinha visto. Dediquei dinheiro e uma semana da minha vida para o evento. O que me levou a querer fazer a viagem? Claro que fatores se multiplicam em qualquer decisão dessas, mas a mola mestra foi buscar repetir o prazer que senti nas mais de vinte e quatro horas que, ao todo, tem a duração da peça. Saía exausta! Exaustão prazerosa de quem tinha vivido intensamente nas últimas horas.

A experiência de entrar num espetáculo do Grupo Oficina é assim. Claro que não é a mesma para todos, e há os que dizem: “não aguentei!” ou “Vi um dia só e achei bacana, mas é muito longa”! E tem até os que afirmam que não gostam do trabalho do Zé Celso. Em meio a tantas opiniões polêmicas, que acompanham sempre o trabalho do Oficina, sinto-me uma privilegiada por ser contemporânea do teatro vital que o grupo faz. Sinto-me privilegiada por ter uma formação que me permite ter prazer em ver, ouvir, participar dos coros, correr, comer e beber nos espetáculos do Grupo Oficina. Espetáculos que subvertem a lógica “tecnocapitalista”, que tenta nos fazer crer que tempo é dinheiro. Lá, o fim e o começo se encontram, e a longa jornada nos convida ao abismo e ao risco de estar vivo e deixar acontecer. Lá, ritualisticamente, a arte se dá a conhecer pela música, pela dança, pelo teatro. Mas, por que nem todos compartilham desse prazer e dificilmente entendem a jornada que empreendi em busca de renovar o prazer do acontecimento original e genial que foi essa peça?

 

A construção do prazer

Defenderei que grande parte dos que não entendem relacionam prazer com distração e só chamam de prazer aquilo que não vai dar nenhum trabalho! São, ou melhor, estão incapacitados para sentir prazer por tanto tempo “tomando teatro na veia”. Contentam-se em beber uma cervejinha depois de um show de algum cantor que está “bombando” nas rádios e dizem ter o maior prazer com isso. Claro que o ser humano está inserido num universo cultural, e a cultura nos dá um sentimento de pertencimento a um determinado grupo. A cultura é integradora, constrói identidades. Podemos pensar cultura como importante processo de comunicação. Temos direitos culturais garantidos pela Constituição brasileira, porque a cultura é necessária. Mas não temos direitos artísticos. A arte, seja ela erudita ou popular, não está no âmbito da necessidade, mas do desejo. Se a cultura integra, a arte rompe. A arte não é uma narrativa que busca manter hábitos e costumes. A arte nos coloca problemas.

Quando nos dedicamos a “curtir o boom da moda”, em qualquer linguagem, estamos nos integrando socialmente, e isso tem sua utilidade. Não somos obrigados a gostar de arte, mas quando nos dedicamos a afinar nosso gosto e nosso prazer estético estamos abrindo um leque para novas possibilidades de mundo. Enquanto a cultura nos ajuda a entender o mundo em que estamos, a arte nos lança para um mundo desconhecido. E isso, muitas vezes, incomoda. Por isso, muitos preferem ficar no universo cultural conhecido.

Bradando uma máxima do senso comum como “gosto não se discute”, continuam em pequenos mundos opacos de criação e cheios de repetições. Vou chegando a um tema delicado. O que provoca um prazer estético? O que é arte e o que não é? Reproduções simplificadas: o muito do mesmo é capaz de produzir prazer estético? Para termos prazer com uma obra de arte é necessário muito mais que somente sacar o cartão de crédito, se sentar num escurinho qualquer, silencioso ou barulhento, dependendo do gosto do consumidor, e se divertir “à vera!”. É preciso algum esforço da parte de quem vê, de quem escuta, de quem sente.

 

Esforço em busca do prazer

É aqui que a coisa parece se complicar. Quando se exige algum esforço, a maioria não consegue ter prazer. Cansa-se bem antes, acostumados que estamos com as facilidades da indústria do lazer, montada para produzir “arte e prazer”. Nos acostumamos a chamar de arte o que se torna conhecido na grande mídia, produzido por celebridades que surgem a cada nova estação. Mas ser uma celebridade não é o mesmo que ser um artista. Celebridades são produtos criados para movimentar a indústria de cultura, como produtos, precisam vender bem e, para vender, precisam agradar ao consumidor. Não podem chocá-lo, não podem provocá-lo, devem dar a ele algo que ele já sabe – e gosta – com cara de coisa nova, mas sem fazê-lo pensar muito e sem perturbá-lo nas suas certezas. Esse agradar é percebido como prazer.

Quando falo em prazer estético, falo de uma capacidade humana de sentir as coisas, de expressar essa “coisa”, colocando-a sensivelmente para outros e para si mesmo. Falo de uma capacidade cultivada em nós de nos extasiarmos diante daquilo que criamos, e que nos recria a cada vez que nos expomos a uma obra. Para ter prazer estético é necessário pensar o significado, apurar a sensibilidade, a imaginação, a inteligência. Exige esforço racional. Afinal, arte é conhecimento e não somente mera diversão. Ter prazer como espectador ou ouvinte de uma obra não é um consumo passivo, mas ativo. E para isso precisamos nos educar, para permitir que o prazer estético surja.

O prazer que uma obra de arte nos dá é necessariamente humano, se dá com base no conhecimento que se revela num determinado contexto, numa determinada possibilidade que se abre para o entendimento do mundo. Arte não é espontaneidade, não é “natural”. Arte não é distração, não é lazer. É conhecimento. E é desse conhecimento que tiramos o prazer estético. Nesse ponto, defendo uma educação que busque restabelecer o sentido do que é ter prazer. A educação deve combater a noção comum de que gosto não se discute. Sim, gosto se discute, gosto se muda, gosto se aprende.

Atrás de quem defende um prazer conquistado no consumo de produtos culturais feitos em larga escala está a ilusão de que: gosto é disso! Ele nem percebe que o gosto se constrói, que os produtos mais disponíveis são simplificações de obras originais e que essa lógica tem mais a ver com o capital do que com o prazer verdadeiro. Provocam uma ilusão de prazer. A opinião pública se sustenta num determinado consenso, em uma média: nada pode incomodar, pois é feito para consumir. A arte tem o poder de estranhar, de promover incertezas, o abismo sobre o qual já falei. O incômodo que uma peça de teatro pode provocar – ou uma dança ou uma performance na rua – é o motor próprio da arte. É desse estranhamento, que algumas obras cênicas são capazes de produzir, que nasce o prazer estético. Por isso, o prazer que vem das artes cênicas não é um “prazer fácil”, mas um prazer conquistado e não sem esforço. Um prazer que, por vezes, se dá muitas horas depois daquilo que se viu.

Se a maioria da população pensa ter prazer consumindo obras musicais repetitivas que invadem e agridem ouvidos mais sensíveis em cada esquina – ou com as piadas vulgares que invadiram os teatros e a TV – é por que estamos longe de termos uma educação orientada para a educação estética do homem. Por favor, não confundam essa reflexão com uma apologia da arte erudita. A arte nasce em todas as camadas sociais. A arte popular, em especial, a arte popular brasileira, é riquíssima. Ressalto a diferença entre a arte feita pelo povo (arte popular) e os produtos feitos para o povo pelas grandes empresas produtoras de entretenimento que lucram em manter a população com pouco ou nenhuma acesso a trabalhos que possam propor novos valores e ampliem a compreensão que temos de nós mesmos.

meditacao-da-artePara termos um verdadeiro prazer estético, os sentidos também precisam ser educados, mas as escolas se centram nos conteúdos cobrados nas provas nacionais e, com isso, vamos distanciando nossos jovens do verdadeiro prazer artístico, uma dimensão humana fundamental. Na aula espetáculo, a arte como missão, que Ariano fez em vários municípios e que a TV Senado exibe de vez em quando, ele duvida do cachorro que adora osso e nos provoca: “O cachorro se lança vorazmente vorazmente ao osso porque tem fome. E dão ossos ao cachorro e afirmam que ele adora. Experimentem dar a ele o direito de escolher entre um osso e um filé e me contem depois o que ele prefere”. “A gente não quer só comida, a gente quer comida diversão e arte”!

 

Matéria originalmente publicada na Plataforma Prisma