E se fosse possível acompanhar a trajetória escolar de 68 mil alunos?

Por Tiago Bartholo* e Marcio da Costa**

 

Já imaginou acompanhar um grupo inteiro de alunos matriculados na SME-RJ ao longo de toda a sua trajetória no ensino fundamental? Que tal todos os alunos que se matricularam no 1º ano do ensino fundamental em 2006? O que poderíamos aprender com essa experiência? Quantos alunos chegariam ao final da jornada sem reprovar ou abandonar a escola? Quantos iriam migrar para a rede privada ou federal de ensino? Essas são questões que durante muitos anos instigaram pesquisadores e gestores de muitas redes de ensino no Brasil e que, muito recentemente, com a coleta sistemática de dados educacionais por secretarias de educação e Institutos governamentais, começam a ser respondidas.

Nós fizemos!

Um grupo de pesquisadores do LaPOpE UFRJ fez um estudo pioneiro com dados disponibilizados pela SME-RJ e apresentou os resultados preliminares no Congresso Europeu de Educação em Agosto de 2016. O objetivo inicial era acompanhar todos os alunos matriculados no 1º ano do ensino fundamental em 2006 ao longo de 9 anos, porém problemas técnicos com os dados de 2014 impediram momentaneamente essa tarefa. Ficamos então com uma análise de 8 anos, entre 2006 e 2013. Agradecemos mais uma vez à SME-RJ pela cessão dos dados para pesquisa. É possível afirmar hoje que a SME-RJ possui um dos mais completos sistemas de gerenciamento de dados educacionais do Brasil. O uso de dados na formulação e gestão de políticas educacionais certamente parece o bom caminho na busca pela melhoria dos indicadores educacionais.

O Gráfico 1 apresenta uma descrição inicial dos resultados com três possíveis desfechos para todos os 68.926 alunos que ingressaram no 1º ano do ensino fundamental na SME-RJ em 2006: a) chegou no 8º ano em 2013 sem reprovação (na série esperada); b) foi reprovado uma ou mais vezes ou, ainda, foi enviado para um programa de correção de fluxo; c) migrou para a rede privada ou rede federal de ensino.

longitudinal-2006-2013

Fonte: Sistema de Gestão Acadêmico (SGA) – Secretaria Municipal de Educação da Cidade do Rio de Janeiro.

 

No gráfico acima, permanecem na linha azul apenas os alunos que não passaram por qualquer retenção no fluxo normal previsto para a escolarização, ou seja, foram aprovados em todas as transições escolares. Os resultados apresentam um cenário conhecido de muitos estudiosos sobre reprovação escolar no Rio de Janeiro e, de forma mais abrangente, no Brasil. É possível observar que após 8 anos na SME-RJ, do total de 68.926 alunos matriculados no 1º ano do ensino fundamental, 20.803 reprovaram pelo menos uma vez ou foram matriculados em programas de correção de fluxo – 30,2%. Uma outra forma de compreender a magnitude do fenômeno é excluir da conta os alunos que, ao longo dos anos, saíram da SME-RJ por diferentes razões (migraram para a rede privada ou federal de ensino, mudaram de cidade ou ainda abandonaram a escola). Nesse caso, considerando apenas os alunos que continuaram na SME-RJ ao longo dos 8 anos, a proporção de alunos que sofreram reprovação pelo menos uma vez ou foram matriculados em programas de correção de fluxo salta para 43,9%. Trata-se de um número muito elevado e que evidencia, sem a necessidade de cálculos complexos, o tamanho do problema da reprovação em redes públicas no Brasil e, no caso específico, na SME-RJ.

Outro ponto relevante é o aumento do número de alunos com pelo menos uma reprovação no final do ciclo de alfabetização. Nesse caso, na transição entre 2008 e 2009, do 3º para o 4º ano do ensino fundamental. Observem que o número de reprovados apresenta um grande salto nessa transição e continua-se acumulando, porém em um ritmo menor, depois do final do ciclo de alfabetização. Levantamos uma hipótese inicial para os dados apresentados. Faremos análises complementares em outro post para testar sua pertinência:

Hipótese: Há uma seleção precoce dos alunos ao final do ciclo de alfabetização (3º ano do ensino fundamental). Essa seleção separa em grande medida os alunos que terão trajetória escolar irregular (múltiplas reprovações ou envio para turmas de correção de fluxo) e os demais alunos que seguirão a trajetória esperada com aprovações consecutivas.

A transferência entre alunos da rede pública e privada também é um tema relevante no campo da educação, em especial em uma cidade que tem aproximadamente um terço dos alunos no ensino fundamental matriculados na rede privada. Os dados mostram que ao longo das oito transições escolares analisadas (2006-2013), um total de 6568 alunos migraram da rede pública para a rede privada. Infelizmente não temos dados sobre o fluxo na direção contrária, ou seja, da rede privada para a rede pública. Os dados evidenciam que 9,5% da coorte que estava matriculada no 1º ano em 2006, migrou para a rede privada em algum momento do ensino fundamental. Há relativa estabilidade no total de transferências quando comparamos o 1º e 2º segmento do ensino fundamental.

Quais os próximos passos?

Estamos analisando quais são as características dos alunos associadas com o fenômeno da reprovação ou envio para os programas de correção de fluxo. Como isso ajuda o gestor? Acreditamos que descrever o fenômeno é apenas o primeiro passo, e o objetivo final é compreender de forma mais profunda suas causas para ajudar na formulação de políticas educacionais que possam mitigar o problema.

 

* Tiago Bartholo é doutor em educação e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ.

** Marcio da Costa é doutor em sociologia e professor do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFRJ.